quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Okja" é um filme importante.

No dia 28 de julho, hoje, a Netflix lançou o filme Okja. O filme trata de um assunto que pode parecer meio surreal quando você chega pela primeira vez e vê o trailer ou lê a sinopse.
O enredo é baseado em uma empresa que criou porcos geneticamente modificados para vendê-los como alimento, para isso a empresa precisava manter a fachada de que os porcos eram animais bem tratados e claro, nada de geneticamente modificados. Para isso, os vinte e seis porcos mais bonitos foram escolhidos e mandados para fazendas ao redor do mundo, e a nossa protagonista, Okja, foi uma delas.


O super porco Okja é uma fêmea dessa espécie gigante, nos primeiros trinta minutos do filme temos uma humanização muito grande dessa criatura, esse tempo pra mim foi muito importante já que após ele toda a crueldade demonstrada no enredo se torna ainda mais pessoal já que no início quem assiste cria uma conexão com a criatura a vendo como muito mais do que apenas um animal sem consciência que deve virar comida no final, nós vemos uma criatura inteligente e quase tão humana quanto a garotinha que cuida dela desde os quatro anos de idade.
Mija, a garotinha que tem Okja como sua melhor amiga foi a escolha perfeita para o enredo na minha opinião. Ela conseguiu mostrar força como protagonista, assim como também um jeito inocente de uma pré-adolescente órfã cujo o único motivo de ter saído de casa e se envolvido com o projeto dessa empresa foi para salvar sua melhor amiga.
Agora, não vá assistir a esse filme pensando que ele é uma coisa bonita do estilo Disney, na verdade Okja é um filme bastante cruel que usa um enredo surreal para de certa forma criticar uma das coisas que ocorre em nossa sociedade todos os dias, a crueldade com animais.
O filme consegue ser muito bonito em vários momentos, mas em muitos outros você se sente completamente destruído com os acontecimentos e isso acaba te fazendo refletir sobre toda a existência dos animais. Como escolhemos os animais que são comida e os que são bichinhos de estimação? Antes de ir a uma parte mais reflexiva desse post, que é o motivo de ter me inspirado a escrevê-lo, devo dizer que todos os atores do filme estão incríveis e em todos os momentos, até mesmo os mais surreais, eles são reais. Por exemplo a personagem de Tilda Swinton e o personagem de Jake Gyllenhaal são bastante surreais e exagerados em sua existência, mas ambos os atores os interpretam brilhantemente. 


Agora, porque acho que Okja é importante?
Quando era pequena vivi rodeada de animais, e por muitas vezes me peguei pensando porque alguns eram comida e outros eram bichinhos de estimação. Tinha conhecido galinhas que assistam novela com a minha família todos os dias, peixes que pareciam entender o que você estava falando, e por aí vai. Minha mãe me contou que uma vez quando era bem novinha e a vi cortando um frango em pedacinhos para cozinhar comecei a chorar e não parei por um longo tempo já que não entendia porque aquele animalzinho devia morrer para virar alimento sendo que haviam frutas e milhares de vegetais que podiam de fato ser alimento.
Continuei me alimentando de carne por um longo tempo, já que afinal isso era completamente normal na casa onde morava, mas minha mãe sempre tinha que falar comigo em várias ocasiões em que perguntava porque precisávamos matar tal animalzinho. Ela não sabia me explicar direito, mas sempre tentava entender minha dor.
Há quase um ano coloquei duas escolhas a minha frente. Não comer mais carne, ou apenas comer em menor quantidade para equilibrar meu corpo geneticamente falando. Depois de pensar muito sobre o assunto em vários ângulos diferentes, retirei toda a carne da minha alimentação diária. Ainda estou descobrindo como me alimentar do jeito certo sem isso, mas muitas coisas que estavam erradas com meu corpo se tornaram melhores depois que parei de comer carne e devo dizer que emocionalmente isso também me ajudou muito. Toda a vez que comia carne me sentia meio culpada, porque não entendia o motivo de precisarmos matar um animalzinho para nos alimentar. Sempre vem aquela ideia de que não era eu quem os estava matando, mas ainda estava me alimentando deles, e pra mim isso era matá-los por tabela. Minha mãe me lembrou recentemente que quando era mais nova perguntava pra ela se depois que tiravam o leite da vaca para consumo humano, as vacas ainda tinham leite suficiente para seus filhotes crescerem fortes. Essa era a minha mente de criança sempre preocupada com os bichinhos e achando estranho quando as coisas aconteciam de um jeito tão fora do que achava natural.
Pra mim o mundo inteiro foi feito de um jeito perfeito. A evolução de cada criatura nos transformou em coisas perfeitas, e se podemos nos alimentar de coisas que não estão vivas, porque a vida de um ser humano deve ser mais importante do que a vida de um animal que é levado ao matadouro apenas para nos alimentar?


Okja é uma criatura fictícia, ela foi baseada em vários animais diferentes, o próprio diretor do filme explicou suas origens e eu aconselho vocês a pesquisarem sobre o assunto porque é bastante interessante de ler. Mas a humanização do personagem nos primeiros minutos de filme faz com que toda a crueldade cometida para com ela durante o restante do enredo seja ainda mais dolorosa, porque a ver naquela situação é literalmente como ver seu bichinho de estimação sendo maltratado. E aí vem a importância desse filme.
Não estou falando para que todos no universo se tornem vegetarianos, até porque isso seria impossível para muitas pessoas, mas Okja é importante para mostrar que só porque não é você quem comete a crueldade com suas próprias mãos, não quer dizer que o seu consumo disso não o torna culpado também.
Uma das cenas mais tristes do filme que me deixou em prantos e precisei literalmente pausar o filme e ir falar com a minha mãe chorando foi uma das cenas finais no matadouro. A minha mente viajou para todos os bichinhos que vi quando criança, a galinha que vi sendo morta uma vez e sangrando contra um balde. A aranha que encontrei morta quando era mais nova e fiz minha mãe me ajudar a fazer o velório dela. O fato de que eu literalmente tenho uma lista mental sobre os insetos que você pode matar e os que você não pode, e as ocasiões em que matar um deles é okay e as ocasiões em que não são. Ninguém vê a forma como a carne que chega ao seu prato foi morta, essa parte nenhuma empresa vai mostrar. Nós só vemos nos comerciais aquela carne linda e toda bem feita, porque se fosse de outro jeito... Ninguém iria consumir. Veja bem, não culpo as empresas que vendem as carnes, porque sim, são eles quem muitas vezes maltratam os animais e os assassinam para trazer a nossas casas, mas a culpa é do consumidor. Porque se ninguém tivesse interesse na carne, então nenhuma dessas empresas existiria. Mas aí é que está a situação. Ninguém está em posição de dizer que todos os seres desse planeta devem parar de comer carne, e não acho que a mensagem desse filme seja essa.
Pra mim, "Okja" é sobre a crueldade com essas criaturas. A cena do matadouro foi tão forte que mesmo com o final praticamente "feliz" dos personagens, eu terminei o filme com vontade de continuar chorando. Okja é uma criatura linda, e a forma como Bong Joon-ho (A mente por trás desse filme.) conseguiu capturar algo surreal com tanta delicadeza ao mesmo tempo em que tratou desse assunto com muita crueldade foi sensacional. 
"Okja" é um filme importante para mim porque ao terminar de ver... Pude pensar sobre o que somos e fazemos como seres humanos. Como muitas vezes na sociedade em que vivemos acabamos por favorecer o lucro ao invés do bem estar de todos os que estão envolvidos. Inclusive, o final do filme com Okja e Mija deixa bem claro que a empresa que criou essas criaturas não vai parar e que o único motivo de termos aquela cena final delicada e digamos... Feliz, é por lucro. Por que se Mija não tivesse arrumado um jeito de comprar Okja, mesmo com os outros milhares de super porcos prontos para serem transformados em alimento, eles não iam poupá-la. Não quero dar muitos spoilers para quem vai assistir, mas a expressão do trabalhador que estava até então matando os animais quando viu a foto de Mija com Okja ainda bebê nos braços foi tão humana, e na minha opinião foi um momento que fez a cena inteira ser ainda mais cruel do que já era antes. 
Até mesmo a violência demonstrada contra os próprios seres humanos, hora física e hora psicológica trás desconforto para quem está assistindo, e em momentos específicos que não irei citar para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu, isso te faz pensar no que nos diferencia dos animais. Por que nos somos os seres supremos do universo? Nós falamos com palavras, podemos nos comunicar assim, mas isso nós faz melhores em que quesito?


Uma frase dita no filme que é muito marcante é a "Tradução é sagrado.", e isso vem do fato que o diretor não é americano e seu filme é divido entre o seu idioma nativo e o inglês, mas pra mim também pode ser a metáfora de algo importante.
Na cena final do filme Okja fala com Mija, não com palavras, mas na cena vemos a boca do animal se movendo e Mija entendendo exatamente o que ela queria dizer e sorrindo em resposta. Aquilo foi comunização. Aquilo foi uma tradução. Quantas vezes nós não conversamos com nossos animais de estimação, e em atos pequenos eles nos respondem? Eles não falam como nós, não com palavras, mas muitas vezes nos apoiam com pequenas ações.
Há quase dois anos e meio nasceram duas gatinhas de uma gata da minha família, Lady, ela infelizmente faleceu, mas as duas gatinhas foram doadas para famílias depois de uma pesquisa cuidadosa. Essas duas pequenas filhotes estavam andando pela casa... Eu estava doente. As duas vieram para a minha cama e deitaram na minha barriga, elas colocaram as patinhas em mim, ficaram perto de mim, e as duas só saíram para se alimentar, e depois voltaram mais uma vez pra mim, e só quando melhorei que elas foram brincar como gatinhos filhotes sempre fazem daquele jeito tão animado. Elas não disseram uma palavra, mas de certa forma conversaram comigo e me ajudaram a melhorar com a sua companhia.
Minha gata, Charlotte por exemplo, esta semana eu estava sentindo cólica, e minhas cólicas são tão horríveis que ás vezes posso entrar em estados de delírio e perder o controle de certos membros do meu corpo, agora que tenho um medicamente específico isso se tornou mais fácil, mas ainda fico incapaz de fazer muitas coisas por causa disso. Charlotte me rodeou inteira, me cheirou, colocou a patinha em mim, verificou se eu estava respirando e depois foi avisar minha mãe que eu não estava bem, a chamando para que ela pudesse me ajudar, e só sossegou depois que minha mãe disse que eu já tinha tomado remédio e que ia ficar bem. É incrível e até parece maluquice pensar que animais de estimação podem pensar, se preocupar com seus donos? Um pouco. Mas todos que já tiveram bichinhos de estimação sabem o quanto isso é verdade. 
Então o quê torna diferente um bichinho de estimação peixe de um peixe que pode virar alimento por exemplo? O que torna os seres humanos as grandes criaturas do universo que podem escolher quem merece morrer e quem merece viver?
Novamente, não quero que o mundo todo pare de se alimentar de carne. Não quero manipular as ideias de ninguém, mas este filme e esta postagem são mais do que falar sobre os maus tratos contra animais que precisam parar. "Okja" fala sobre os maus tratos contra a existência da nossa sociedade. Os maus tratos contra nós mesmos. E a linha fina que divide o que é um ser humano e o quê é um animal.
Um filme realmente chocante, diferente, que se deu início em uma ideia completamente surreal, mas me surpreendeu muito com o toque de humanidade em todos os personagens, sejam para o mal que somos capazes de fazer como humanos, ou para o bem que somos capazes de fazer como humanos. E em cenas pequenas também é demonstrada a linha entre o quão longe alguém irá para fazer o que clama ser o bem. É um filme para criar conflito, conversas interessantes sobre o rumo que nossa vida está tomando perante a sociedade, e um filme que não existiria sem a Netflix, já que foi ela quem deu a liberdade necessária para que Bong Joon-ho pudesse criar suas cenas mais violentes e chocantes sem derrubar sua crítica a humanidade e também sua criatividade para com esse projeto.


Visualmente incrível, tão bonito quanto cruel, e com um roteiro digno de indicações a vários prêmios e atuações tão dignas quanto. Um projeto realmente incrível que fará você pensar sobre suas decisões perante a própria vida e tudo que a cerca.
E em uma leve nota que não é tão levemente abordada no filme, saiba o que você está comendo. De onde vem. Como veio. A abordagem não é nada leve no filme como mencionei acima, mas pra mim foi necessário que o assunto fosse tratado da forma que foi para que o impacto do enredo fosse tão forte quanto foi.
Um filme que definitivamente não quero ver de novo, sofri bastante com esse enredo. Mas um filme que fico feliz que conheci e assisti, por que embora ele não tenha me feito tomar alguma decisão gigante em minha vida, de certa forma sinto que o impacto que teve em mim me fez pensar em várias coisas importantes e daqui pra frente vou ser capaz de levar isso comigo, e estamos precisando de filmes assim hoje em dia. Estamos em falta de filmes assim!
A Folha de São Paulo disse algo interessante, se quiserem ver de onde vem o texto que vou por a seguir siga o link para a crítica do filme no site da Folha aqui.

 "Sua disseminação na Netflix pode não provacar uma epidemia de vegetarianismo. Mas suas cenas mais fortes deixarão muitos carnívoros com um bocado de culpa."

"Okja" é um filme que ao mesmo tempo em que é simples, é extremamente complicado. Vale muito a pena assistir, e tenho certeza que depois de ver o filme você vai querer começar várias discussões com pessoas diferentes debatendo o assunto. Por que uma obra de arte não tem que mostrar apenas beleza, ela também tem que mostrar a crueldade da existência para que seja real, e toque nossos corações, e "Okja" faz isso perfeitamente, de forma tão delicada quanto incomoda. E tão bonita quanto feia.


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